A Porta

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"Quero te ver."

Senti minhas pernas amolecerem, e se não fosse a cama ao meu lado para me sentar, com certeza eu já estaria no chão.


Você faz querer te trancar em uma caixa pra te guardar para sempre comigo.
Depois de tantos anos e de tantas coisas, é incrível como você ainda consegue exercer um efeito sobre mim. Mas, eu travei. Eu não sabia o que responder. Eu queria te ver, mas ao mesmo tempo não queria.
Enrolei alguns minutos antes de responder a sua mensagem. Entrei no banho, fiz café, liguei a tv e quase dormi. Olhei no relógio se haviam se passado quase duas horas. "É, tá bom.".
Demorei pra responder para você pensar que talvez eu estivesse ocupada com outro alguém, enquanto na verdade eu estava querendo receber outra mensagem sua, insistindo a minha presença. 

"É. Eu também quero te ver."
Respondi com descaso e continuarei respondendo, fingindo que não me importo, enquanto me mato de ansiedade para receber uma resposta sua logo.

Mas essa resposta não veio.

Se estendeu por horas aquele vazio, aquela "resposta-sem-resposta". Já estava começando a pegar o sono novamente, com aquele livro "super empolgante" A Culpa é das Estrelas, quando você me respondeu:




Você sempre foi muito bom em Exatas e eu em Humanas. Talvez esse tenha sido um dos principais motivos pelos quais demos (por pouco tempo) certo.


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Aliás... Porta? Que porta? Eram dez e meia da noite, e qual porta eu poderia abrir?

Segundos depois a campainha tocou. Parece cena de filme, e acho que foi essa a sua intenção: fazer com que aquele momento se parecesse com um desses de cinema, como naquele filme que gostávamos de assistir juntos, "Sem Reservas".
Nós gostávamos de assistir ele, ou ele sempre passava quando nós estávamos juntos?
Não importa. Era legal assistir aquele filme com você.

Hesitei em abrir a porta. Senti um enorme frio na barriga e um arrepio percorrer minhas costas inteira. Meus pulmões se encheram de ar e logo se esvaziaram. Dizem que essa respiração acalma, então, quis testá-la. Mas nem repetindo isso por dez vezes, eu não me acalmei. E nem se eu repetisse mais duas mil vezes, eu não me acalmaria.

Você bateu na porta, insistindo pela segunda vez que eu a abrisse para você.

E então, eu abri.

Você estava lindo. Lindo e ponto. Lindo por completo. Você estava lindo dos pés até a cabeça. Principalmente na cabeça. Que calça jeans e camiseta lisa sempre caem bem é fato, mas elas caem bem demais em você. Não é possível! Na verdade, tudo cai bem em você, até aquela sua cueca do Star Wars. Se fosse outra pessoa de vinte anos usando, eu diria que era ridículo, mas você... ah, em você é bonito!
Você, ali, na porta, com uma calça jeans clara, camisa azul, tênis, e um sorriso lindo. Simples, mas bonito. Ou bonito para mim.

Ficamos em silêncio, se olhando, até você colocar uma de suas mãos nas minhas costas e me puxar para perto de você. Você não me beijou, apenas me olhou no fundo dos olhos, e sorriu.
Te roubei um beijo e dei espaço para você entrar. Na mão direita trazia consigo um embrulho. Era um presente.
Sorri para pegá-lo, quando você me disse "Depois".

Ou seja, querendo ou não, eu teria que ficar com você ali, naquela noite.
Afinal, eu gosto de presentes.



Crônicas de uma Iludida - Parte V