Medo na escuridão

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26 de Julho de 2017.
Quinta-feira. Inverno.


Voltei para casa a pé, na tentativa de sair do sedentarismo, e aproveitar para escapar da ida ao supermercado e o sacrifício de enfrentar filas grandes e demoradas. 
Meus pais que me desculpem, mas isso, definitivamente, não é pra mim.

O céu estava lindo enquanto caminhava. O pôr do Sol, a Lua, o frio que começava a fazer, e a nostalgia em caminhar.
Que delícia.
Entrei em casa, tudo escuro, e o medo apareceu. 
Socorro. 
Como tenho medo do escuro.

Mas, eram sete da noite quando o primeiro estouro ecoou por perto.
Um estouro, seguido de um apagão. 
Um calafrio imenso percorreu pelo meu corpo, e a sensação que conhecia então tomou conta de mim.
Não consigo controlar meus pensamentos.
A escuridão é um desafio pra mim.

Percorri minhas mãos pela cama, em busca do meu celular. A bateria estava fraca, mas ao menos conseguia ter um pouco de luz para iluminar o quarto.

Droga.
Justo no momento em que estava despida, enrolada na toalha, pronta para um banho relaxante, depois de (mais) um dia estressante de trabalho...
Uma pena.

No desespero, enchi uma.
Uma, duas, três, quatro... foram sete no total.
Enchi sete leiteiras com água e deixei ferver.
Eu ia fazer aquele banho acontecer.

Entretanto, nesse meio tempo entre buscar o auxílio do celular e esquentar a água para tomar banho, outras coisas aconteceram.
Saí um busca de lanternas. 
É nessa hora que agradeço a Deus, e aos meus pais, por terem colocado uma luz de emergência bem no centro da cozinha. Facilitou e muito minha concentração.
Enquanto procurava as lanternas, meu coração pulsava, parecendo que sairia a qualquer momento do meu peito.
Estava tudo em silêncio. Em casa, na vizinhança, no bairro...
Mas, cada barulho, ruido, ou o que quer que fosse passava pelos meus ouvidos, me fazia estremecer da cabeça aos pés. Sentia um aperto no peito, e o coração cada vez mais acelerado.
Mil pensamentos invadiam minha mente, sem que eu pudesse lutar contra. Recorri aos Corinhos que sei, pedindo para Deus afastar o mal de mim, da minha casa, e proteger-me, do jeito que só Ele sabe fazer.

Espalhei lanternas.
Uma, duas, três, quatro.
Quatro lanternas, sendo uma delas no corredor, outra no quarto, uma na sala e outra na cozinha. 
Estou acostumada a ficar sem luz em casa. Mas não sozinha.
Ficar sem luz desacompanhada foi uma novidade pra mim. 
Novidade horrível, mas interessante.

Enquanto aquecia a água, procurei por velas em casa.
Encontrei duas. Mas ainda não pareciam suficientes. 
Por sorte, encontrei uma nova, grande e bonita. 
A estreei, sem nem ao menos pensar se poderia ou não usá-la.

Lanternas em mãos, velas acesas, e casa parcialmente - e fracamente - iluminada.
Tranquei portas e fechei por total as janelas. 
Só não fiz uso de cadeados pois eles estavam difíceis de encontrar, caso contrário, faria uso sim.
Tudo parcialmente iluminado, e trancado.
Estava um pouco em paz.

A água esquentou, e me preparei para o banho.
Preciso tirar o chapéu para minha gata. Ela ficou do meu lado até nesse momento, como sempre.
Foi minha companhia, como se sentisse que precisava fazer isto, como se soubesse que eu precisava - nem que fosse dela - para me sentir segura, e protegida.

Banho é banho.
Agradeço a Deus por ter condições de tomar ao menos um todos os dias.
Que delícia essa pequena felicidade diária, que passa despercebida por nós, não é mesmo?
Tomei o banho atenta a cada barulho e cada detalhe ao meu redor. 
Banho quente. Ainda bem.

E então, mais um estouro.
E outro.
Dois estouros seguidos, e várias piscadas de luz, mas nada dela voltar.

Troquei de roupa e verifiquei as lanternas. Todas em seus devidos lugares, e acesas. 
Os cachorros não paravam de latir, mas não tive coragem de ir ver o que poderia estar acontecendo.

Dias atrás, tive um pesadelo terrível.
Sonhei que estava no fundo da minha casa, e de lá, da porta da varanda, olhava para o muro chamando minha gata que escapara, quando de repente ouvi um barulho vindo do quintal. Olhei, e longe, avistei um vulto branco, no meio da escuridão. 
Não sei porque, mas no sonho, chamei a gata e ela apareceu e entrou em casa, e ao invés de trancar a porta, simplesmente a abri de novo e olhei na direção do vulto. 
Ele ia se aproximando cada vez mais e mais. 
Céus. Que tortura!
Quando dei por mim, o vulto era uma criança, inteira vestida de branco, como se fosse uma freira de filmes de terror, pálida, com a boca roxa, e fazia uns movimentos com a mão pra mim.
Minha reação no sonho foi chutá-la, expulsando de casa e dizendo que ela não entraria.
Cruzes!
Deus!
Me salva!
Acordei chorando, com a boca seca, e com medo de ir ao banheiro ou levantar para ir beber água.
Que horror.
A única coisa sensata que consegui fazer foi orar a Deus pedindo perdão e sua proteção.
Céus!

Esses pensamentos voltavam à minha cabeça toda vez que pensava que teria de ir ao quintal ver o que estava acontecendo.
Mas não fui.

Orei.
Pedi a Deus que me livrasse desses pensamentos e que me desse paz, acalmasse meu coração, para que eu não surtasse.

E Ele me atendeu.
Aos poucos o nervosismo foi passando, e o medo diminuindo. Não por inteiro, nem pela metade. Mas estava bem mais calma do que o começo.

Sempre que fico no escuro imagino cães raivosos, como Sirius Black em Harry Potter, ou lobisomens, vampiros, demônios ou algo parecido, vindo em minha direção e me causando algum mal.
Isso é horrível. Me desespero!
Mas ao mesmo tempo, é incontrolável. Não seguro meus pensamentos neste momento.
Isto acontece todos os dias.
Todos os dias.
Sejam os horários de noite, ou de madrugada, ou à tarde, quando estou sozinha. Seja em casa, na rua, e até na faculdade.
Isto é sombrio.

Mais um estouro ecoou pela vizinhança, e a luz piscou, dando indícios de que voltaria. 
Mas não voltou.
Eram oito e meia da noite.
Decidi que não ligaria a internet do celular, para poupar energia para uma emergência. 
Então, recorri ao celular antigo, com carga completa, e liguei a televisão digital dele. 
Que delícia foi ver que tinha sinal por aqui!

Assisti à novela "O Rico e Lázaro", e o começo do jogo do Corinthians, em meio ao vai e volta de energia, que nunca se estabilizava.

Eram dez para as dez da noite quando a energia finalmente voltou. 
Certifiquei de que a luz não cairia mais para começar a acender todas as luzes de casa e apagar as lanternas, mas ainda assim, deixá-las todas em seus devidos lugares para caso começasse tudo de novo.
Enquanto não me desgrudava de outra lanterna, claro.

Tudo dentro dos conformes.
Dez horas meus pais apareceram em casa, e só então pude desligar de vez todas as lanternas e guardá-las, destrancar as portas e janelas, e apagar as velas.
Estava mais segura.

Mas ainda aquela sensação de medo e solidão tomava conta de mim, só de me imaginar no escuro novamente, sozinha ou não.

Vinte e seis de julho de dois mil e dezessete.
Venci, parcialmente, meu medo de escuro e fantasmas da infância.

Seria culpa do Scooby Doo?