quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Esbarrão da vida

 


Encarei a foto na minha mão por alguns minutos.
Senti saudade.

Foi anos atrás.
Tirei uma foto dele quando estava voltando pra casa. 
A gente se conheceu meses atrás, e passamos uma madrugada e manhã juntos.
Fiz um clique enquanto ele se arrumava para ir trabalhar. 
Sábado à tarde.
Era mais uma etapa da liga amadora de futebol da cidade, e o jogo ia começar em poucas horas, mas ele sempre fazia questão de chegar antes de todo mundo pra fazer reportagem e entrevistas. 

Entre chegadas e partidas, passagens trocadas, desembarques errados, e mensagens de áudio, resistimos.
Resistimos à vontade de deixar para depois, de deixar de lado, de deixar passar.

Mas esse não foi nosso encontro de almas.
Foi um esbarrão da vida em uma esquina maravilhosa.
Foi um sorriso trocado, um beijo molhado, e um abraço apertado.
Foram dias de inspiração, dias de sol, dias de cheiro de lavanda no ar.

Saudades, inclusive.

E então, passou.
Do tal "esbarrão da vida" virou um "desencontro". 
De um sorriso trocado, virou só rosto virado, olhares desencontrados.
Mudança de calçada, de corredor, de trajeto.

Uma intimidade tão profunda... e de repente, uma estranheza desconhecida.
Um anônimo.
Um anônimo que eu saberia dizer qual a cor da meia estaria usando dependendo do dia – na segunda, cinza; na terça, azul; na quarta, laranja; na quinta verde; sexta seria branca ou preta, dependendo do humor; sábado seria estampada; e no domingo seria apenas chinelo.

E tá tudo bem.
Passou.
Saber deixar ir é necessário.

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